quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Cinzas














Nos escombros dos incêndios de domingo, Marcelo Rebelo de Sousa fez o que precisava de ser feito. Mais vale tarde do que nunca. 

EDP - A Crónica das Trevas (77): seis horas de escuridão

O "apagão" do passado domingo, a que aqui fiz referência noutro contexto, parece nada ter tido a ver com o incêndio da Serra do Bouro, pelo que fica aqui o registo, a juntar aos muitos que vou reunindo: a luz desapareceu às 22 horas de domingo e só regressou às 4 horas de segunda-feira.
Serviu para agravar o incómodo de uma situação de grande risco e, como é habitual, as causas ficam por esclarecer.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Entre as chamas e as trevas


Já ao anoitecer cheirava a queimado. Acontece, por vezes, já que a casa fica numa zona elevada e o vento traz de incêndios que não estão próximos o fumo, o cheiro a queimado e as partículas pretas.
Mas depois das nove e meia, a situação revela-se em toda a sua gravidade e, à distância, na direcção da Foz do Arelho, vê-se um grande clarão avermelhado e fumo a erguer-se. O vento sopra com força e vai empurrando as chamas. Para Norte, ao longo da costa atlântica, mas também com faúlhas que dançam sem rumo.
Fui ver. A Estrada Atlântica, que percorre toda a fronteira ocidental do concelho de Caldas da Rainha e sua freguesia da Serra do Bouro, é balcão e plateia para as dezenas de pessoas que assistem ao espectáculo das chamas vermelhas que não param. Há poucos bombeiros em acção.
Volto para casa, preocupado. Falo com o vizinho da casa de cima, que também está bastante preocupado. A extensão de mato que nos separa das chamas é feita de vegetação seca. Se as chamas atravessarem a estrada, como chegou depois a acontecer, podem avançar rapidamente. Ele começa a regar a casa e a vegetação que a circunda.
Regresso a casa e, de repente, não há luz. Quase às escuras, regamos vegetação e a casa.
Ao longe, continua a ver-se o clarão e o fumo e a ouvir-se o crepitar da vegetação a arder.
Nova incursão: o incêndio já atravessou a Estrada Atlântica e ameaça casas, mais para norte. Dizem-me que os bombeiros já nem combatem as chamas mas que já só se preocupam em defender as habitações.
Regresso a casa. Sempre às escuras. O clarão, o crepitar e o fumo continuam. Apesar dos dois ou três quilómetros que nos separam da chamas, é como se o perigo estivesse já a ameaçar-nos o jardim.
Ainda saio uma terceira vez. Na Estrada Atlântica as chamas vão ainda pastando nos terrenos ardidos mas pode dizer-se que a situação está controlada, pelo menos aquela que nos ameaçava directamente.
No regresso informo o meu vizinho. Ao longe, a ameaça começa a decrescer. 
É quase meia-noite. Em contactos com a EDP, ouvimos as previsões do regresso da electricidade: meia-noite e trinta, uma e trinta... até ao ponto em que já não dão previsões.
Às quatro horas, a electricidade regressa. As chamas já não se notam.
Um candidato à junta de freguesia queria "embelezar" a região da Serra do Bouro. Fique-se, por ser mais seguro, com o manto negro e ardido deixado pelas chamas: é um retrato trágico da horrenda situação que os seus "padrinhos" deixaram. 



*

De manhã o que se vê é desolador. O incêndio percorreu, muito rapidamente, mais de quatro quilómetros da Estrada Atlântica, passando do lado do mar para o interior em alguns pontos e ameaçando casas.
O que era uma superfície verde, de aspeto encantatório, é uma terra negra, que ainda fumega. Em alguns locais as árvores foram poupadas e só ardeu a vegetação rasteira. Depois de ter sido pasto das chamas, o terreno é agora pasto para mirones e fotografias.
O que nunca os poderes públicos quiseram fazer, fizeram as chamas: o terreno ficou tragicamente limpo e o que ardeu já não voltará a arder.









sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Conversa para camelos





Típica conversa para camelos de um Governo que gosta de aldrabar: para os "recibos verdes" seria mais importante aliviar o IRS, garantir acesso ao subsídio de desemprego e consolidar descontos decentes para a Segurança Social.
Os "recibos verdes" têm de cobrar IVA aos seus clientes (que depois o deduzem) e entregá-lo ao Estado, deduzindo desse valor o que gastaram com o IVA dos outros. É só isso.
Esta isenção (que era até agora de 10 mil euros) serve para enganar quem não percebe de "recibos verdes", nem de IVA (nem de economia, já agora).
Infelizmente, há muita gente que gosta de ser enganada por estes idiotas. Ou melhor: que gosta de ser transformada num rebanho de camelos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Diziam que era a "campanha negra"










A certa altura, o então primeiro-ministro chamou "campanha negra" às suspeitas que iam aumentando sobre a sua conduta. Estávamos no tempo do "caso Freeport", antes do "caso da licenciatura", ao mesmo tempo que...
Ontem, pela primeira vez na História portuguesa, este homem foi, na qualidade de primeiro-ministro, acusado de 31 crimes no domínio económico (de corrupção a fraude fiscal) e, com ele, mais 27 pessoas e empresas, incluindo um banqueiro e dois administradores, todos eles considerados modelos para a sociedade
Durante alguns anos, o "engenheiro" teve uma legião de companheiros e companheiras em vários campos, do Governo às suas camas passando pelo partido (o PS, por onde tudo passa...) e pelo actual Governo.
Adoravam-no como a um deus, defendiam-no, faziam peregrinações a Évora como se a prisão fosse Meca, só lhes faltou garantir que não foi ele o terceiro chefe de Governo do PS a pedir ajuda financeira externa pela terceira vez.
Mas ontem, salvo algumas declarações repelentes de criaturas igualmente repelentes (mas adequadas a este PS), calaram-se todos. 
E hoje o que fala são as primeiras páginas dos jornais. Ninguém os tem no sítio para voltar a falar em "campanha negra"?




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Notas de prova

Campolargo Baga - Tinto 2011 - Bairrada
Baga
M.S. Campolargo, Herdeiros, Quinta de S. Mateus (Anadia)
13% vol.
Muito bom.

Notas de prova


Casa das Gaeiras - Tinto 2015 - DOC Óbidos
Touriga Nacional, Tinta Roriz e Syrah
Parras Vinhos (Maiorga, Alcobaça)
13,5% vol.
Muito bom.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O relógio

Devia ser para mostrar o relógio, grande e branco, a quem passa...



O frete da "Gazeta das Caldas" que envergonha o jornalismo


"Ó senhor presidente, dê aí um subsidiozinho..."

Que a "Gazeta das Caldas" (ou só o seu director?) nutre um fascínio cúmplice pelo presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha já se sabe. Mas, mesmo sabendo-se, seria difícil pensar que a coisa fosse tão longe.
A manchete de hoje deste jornal regional (que se reivindica de certos pergaminhos) é um incomensurável frete ao PSD local e uma vergonha para o jornalismo.
A "Gazeta das Caldas" tem a obrigação de perceber tudo aquilo que qualquer pessoa com um mínimo de sentido político e de compreensão das realidades facilmente vê.
A Câmara Municipal de Caldas da Rainha leva a sua influência avassaladora a um número indeterminável de habitantes da região (ou seja, eleitores) e fá-lo através do mais simples dos elementos: o dinheiro.
É o pessoal que trabalha nas estruturas municipais, são as associações mais diversas do concelho, são as empresas daqui e dos arredores (e que aqui contratam) chamadas para as mais variadas obras públicas. De uma forma ou de outra, é a Câmara a financiar grande parte deste universo. E na Câmara manda o presidente. Portanto, convém manter tudo como está.
E não é só o dinheiro que pode influenciar ou determinar o sentido de voto dos eleitores.
O presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha beneficiou de uma campanha propagandística que começou, praticamente, com a sua chegada ao poder, ainda em 2013. Festas, obras, espectáculos, iniciativas diversas... O candidato do PSD local que tanto embevece este jornal esteve em todas. (E foi assim, também, que o PS conseguiu melhores resultados nas eleições locais. Será de pensar que a "Gazeta" está de acordo com estes procedimentos?)
O candidato esteve também em numerosas fotografias da própria "Gazeta". E várias vezes na mesma edição do seu rival, o "Jornal das Caldas" que, pelo menos, mantém algum distanciamento institucional com a Câmara.
Um jornalismo sério (que pode ser praticado mesmo quando o director de um jornal não é jornalista) exporia estes simples factos. Que explicam que a vitória (venerada também, com direito a "Dr. Tinta Ferreira" e tudo, na coluna de opinião da última página) até foi, afinal, diminuta. Controlando, como controla, a vida do concelho, até admira que a percentagem não fosse aos 100 por cento.
Este frete ao poder (significativamente ao lado de um texto do director a lamentar-se por a vida "não estar fácil" para a imprensa regional...) consegue ser até mais do que um frete.
O estilo ordinário da opinião final recomenda que disto se diga que, mais do que um frete, o modo como a "Gazeta das Caldas" se pôs de joelhos perante o poder do PSD local é mais próprio de um... alfinete de peito. Que engula até ao fim e que lhe faça bom proveito.

*

O jornalismo apoia-se em factos (ou deve fazê-lo, se não ressalva que se trata de especulação ou opinião).
Não há, neste lamentável caso, um único elemento que sustente a manchete. 
Não é pela "Gazeta das Caldas" que ficamos a saber, por exemplo, qual é a percentagem obtida pelo PSD a nível nacional e qual a percentagem obtida pelo PSD caldense. Nem em câmaras municipais, nem em assembleias municipais, nem em assembleias de freguesia. Nada. Zero absoluto.
E, tecnicamente (e deontologicamente), só pela comparação entre percentagens é que se poderia chegar a uma comparação entre o PSD de Caldas da Rainha e o PSD nacional. Na sua ausência, e mesmo só considerando o aspecto factual, a manchete da "Gazeta" não é notícia. É só opinião. Mas sem sustento no veículo que usa.