sábado, 9 de janeiro de 2016

Presidenciais: onde está o Wally?


É possível que Marcelo Rebelo de Sousa tenha encarado as eleições presidenciais como um desafio, objectiva e subjectivamente.
Tinha, um dia, de se submeter a uma eleição nacional e fazer por ganhá-la. Com isso desmentiria os que o acusavam de ser só “treinador de bancada” com resultados infelizes quando desceu à arena política (câmara de Lisboa e AD), e culminaria a sua vida pública com o mais elevado cargo do Estado numa altura em que ele, vazio, ficava mesmo a jeito.
Por outro lado, e numa altura em que os resultados das eleições legislativas eram muito incertos, o presidente Marcelo seria, para o eleitorado do PSD e do CDS, a melhor das hipóteses se o PS chegasse legitimamente ao poder.
A sua candidatura era natural. Mas num espectro político que, por referência aos partidos, abrangesse parte o PSD, o CDS e uma parte do PS.
A sua vitória seria segura e talvez ainda mais segura se se afirmasse como uma candidatura individual e “independente”. O sistema constitucional português, nas suas boas intenções, reserva as eleições legislativas aos partidos e as presidenciais aos indivíduos: as candidaturas presidenciais são pessoais e não partidárias. 
Mas, no fundo, esta perspectiva é falaciosa. Nestas eleições presidenciais há dois partidos com candidatos próprios: o PCP e o BE. Por outro lado, o PS, que até oficialmente não tem candidato, consegue o prodígio de ter três candidatos: dois são militantes do PS e um é como se fosse, dependendo da ala do PS que esteja de turno nesse dia (Sampaio da Nóvoa).
Se a “direita” tem um candidato (Marcelo Rebelo de Sousa), a “esquerda” tem cinco (por ordem alfabética: Edgar Silva, Henrique Neto, Maria de Belém Roseira, Marisa Matias, Sampaio da Nóvoa). Depois há quatro candidatos, que oscilam entre o caudilhismo demagógica e a vaidade.
Destas dez figuras, as que realmente importam (e se a democracia permite esta espécie de feira das vaidades, ela também permite dizer que alguns candidatos são relevante e que outros, apesar do penteado ou do discurso, realmente não o são) são as do leque “esquerda”/”direita”, mesmo que a maioria dos cinco da “esquerda” tenham um discurso que revela a sua profunda ignorância dos poderes e do papel do Presidente da República em Portugal.
A fartura de candidaturas pode dar uma imagem pujante da “esquerda”. Mas essa imagem, a existir, só pode ser patética, e não apenas pela sua divisão e pela sua ignorância.
 
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A “esquerda”, com os seus cinco candidatos, poderá vencer as eleições presidenciais? Não, e não será por completo arriscado dizer que nunca o conseguirá fazer, nestas eleições, à primeira volta.
As candidaturas do PCP e do BE visam apenas a fixação dos respectivos eleitorados, com as suas versões algo troglodita das respectivas prestações nas eleições legislativas, com discursos mais caceteiros do que os seus chefes partidários.
O que dizem não é a pensar no exercício do cargo presidencial mas a pensar no que os militantes e eleitores do PCP e do BE querem ouvir. Poderá ser interessante especular sobre o que seriam os mandatos presidenciais de Edgar Silva e de Marisa Matias mas o assunto é mais sério do que isso, já basta o governo que existe actualmente e nenhum deles (nem as suas hierarquias partidárias) pensa na realidade que lá chegará.
E no PS? António Costa conquistou o Governo com uma frieza golpista que se julgava impensável no país dos “brandos costumes”. É possível que nesta fase, enquanto subsistem as ilusões, a escolha da candidatura presidencial fosse feita de maneira mais controlada e com todas as opções bem dentro do redil partidário.
Mas o mal já estava feito. Num retrato também simbólico daquilo que é e sempre foi o PS, os seus três candidatos dão voz a três sensibilidades diferentes: Sampaio da Nóvoa é o candidato da esquerda do PS, da sua “terceira via” actualizada; Maria de Belém Roseira é a candidata dos apoiantes do “bloco central” dentro do PS, de um sector mais conservador; Henrique Neto é o sucessor de muitos outros candidatos derrotados, que se ergueram de margens do PS para onde rapidamente voltaram, uma candidatura marginal que também vive do relativo êxito mediático do candidato e que, ganhando algum ímpeto, pode ir buscar mais votos aos sectores conservadores do PS e a algum eleitorado conservador (que não consegue satisfazer-se com Marcelo Rebelo de Sousa).
Em qualquer dos casos, as eleições presidenciais, pelo menos à primeira volta, serão uma derrota para o PS. Nem vale a pena escondê-lo: a soma dos votos obtidos pelos três candidatos deve ser lida, com alguma maleabilidade, em função dos resultados obtidos pelo PS nas eleições legislativas de Outubro do ano passado, mas também fragmentadamente: qual é a tendência das três que obtém mais votos? E aproveitá-los-á para uso interno?
 
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E Marcelo Rebelo de Sousa conseguirá ganhar as eleições? À partida, sim. Pode dizer-se que tem tudo a seu favor, sobretudo por comparação com os restantes candidatos.
Não é um desconhecido e a exposição mediática está assegurada, pelo menos desde que passou da rádio para a televisão. Conseguiu, diante das câmaras, substituir a postura do professor catedrático e autor de pareceres jurídicos por uma atitude mais simpática e mais afectuosa, moderando-se nos comentários e procurando mostrar que sabe de tudo um pouco, como um divulgador e não um comentador. E até pode ganhar um apoio mais emocional de quem o vê transformado no “bombo da festa” dos restantes nove. Por outro lado, não renegou objectivamente a “família” política e partidária e a popularidade que ganhou também lhe abriu portas na “esquerda”, apesar de se situar no campo da “direita” e não apenas no domínio político.
Mas é aqui que pode estar a sua maior fragilidade.
Da incursão na festa do “Avante!” em vésperas de se apresentar como candidato presidencial ao modo como se foi criando alguma distância relativamente ao PSD e uma aproximação cautelosa ao PS de Costa, Marcelo pode ter perdido apoios e votos entre os eleitores do PSD e do CDS. E, não sendo esse o seu eleitorado exclusivo, é com ele que Marcelo pode contar, nas eleições ou depois, se chegar à Presidência da República.
Esta situação pode levar à abstenção nas eleições de 24 de Janeiro ou à deslocação de votos… talvez para o único candidato que apresenta um perfil mais sério e mais conservador, que é o caso de Henrique Neto.
E se Marcelo não ganhar à primeira volta, ganhará à segunda? Poderá pensar-se que sim, claro, mas tudo dependerá do outro candidato que passar à segunda volta e dos votos que consiga ter por parte do eleitorado dos restantes perdedores.
Portanto, Marcelo precisa mesmo de ganhar à primeira volta. E de ser mesmo o Wally de que ainda anda à procura o eleitorado conservador e/ou mais avesso a aventuras políticas (como a deste governo “das esquerdas”). Ainda haverá tempo para isso?
 
(Publicado, em três partes, no Tomate.)

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