terça-feira, 29 de março de 2016

Onde é que se mete o bibelot?!


A notícia prometia: a Presidência da República e o titular do cargo receberam um cão, um pastor-alemão de origem militar, com representantes da Força Aérea e o sorridente secretário de Estado da Defesa a levarem o jovem "Asa" a Marcelo Rebelo de Sousa.
Não faltaram as inevitáveis comparações com Barack Obama e o enaltecimento do tão mediático presidente português.
A coisa demorou dois dias e transformou-se numa simples manobra de propaganda: o "Asa" não fica em Belém, continua a ser do Presidente da República ou de Marcelo Rebelo de Sousa ou dos dois e mas vai empandeirado para a GNR porque "o Palácio não tem condições nem espaço adequado para receber o animal de estimação, da forma a ser tratado e educado de forma correta".
Não é muito diferente, afinal, daqueles casos em que os cães são oferecidos para serem depois votados ao abandono, "fugidos" ou "perdidos", como um bibelot de mau gosto que se recebe de presente e se esconde num canto.
O gesto é desprezível. A única vantagem é que o "Asa" estará na GNR, ao que consta em bom ambiente, o que é melhor do que com um dono que o rejeita.


O Presidente, o secretário de Estado da Defesa e o bibelot

sábado, 26 de março de 2016

"Ray Donovan": Myron Bolitar em versão "lado negro da Força"





Ray Donovan (Liev Schreiber, "calmo, frio, com ligações") é uma espécie de réplica maligna da famosa personagem de Harlan Coben, Myron Bolitar, mas na sua versão mais sinistra. Bolitar é um agente desportivo. Mas Donovan é um agente... de tudo. Um facilitador, um negociador e um mestre de expedientes no mundo dos famosos e dos poderosos de Hollywood. O seu arranque, no modo como Donovan resolve, misturando, os problemas de duas "estrelas", é magistral.
Criada por Ann Biderman (argumentista e criadora da malograda série "Southland"), "Ray Donovan" é mais uma das muitas séries da televisão dos nossos dias a ganhar pontos nos domínios da criatividade, da representação e da abordagens das várias realidades sociais em que o cinema tem, de certa forma, perdido terreno.
É também uma crónica familiar (como "Os Sopranos" ou "Sons of Anarchy"), onde Ray Donovan se vê emaranhado nos problemas da sua própria família (mulher e dois filhos adolescentes), dos seus irmãos disfuncionais e de um pai que também parece ser oriundo do "lado negro" do seu mundo: Mickey Donovan, interpretado por Jon Voight, que domina cada cena em que aparece.
"Ray Donovan" seguiu uma dada direcção nas primeira e segunda temporadas mas, à terceira, depois de Ann Biderman se distanciar, mudou de ritmo e corrigiu o seu rumo.
Ray Donovan ficou quase como mais um dos muitos detectives particulares de métodos sombrios que habitam a ficção americana mais do que um Myron Bolitar "from hell". Mas isso, sobretudo depois dos primeiros episódios, não prejudica o desenrolar da história.
As três primeiras temporadas são de grande qualidade. A quarta temporada começa no Outono deste ano.

("Ray Donovan" passou no canal de televisão por cabo TV Séries. Vi as três temporadas em DVDs legalmente adquiridos, em edições Showtime.)


terça-feira, 22 de março de 2016

Mário Nogueira morreu


O actual governo acabou com os exames no ensino básico e alterou o regime das provas de aferição.
Fê-lo quando já o ano lectivo tinha começado. Depois de algumas semanas de silêncio, a questão das provas de aferição (que implicavam uma avaliação do sistema no seu todo) foram transformadas em facultativas. As escolas que decidam. Os alunos vão sujeitar-se a mais uns testes que não servem para nada? Depois do fim dos exames, saudado de igual modo por pais e encarregados de educação com problemas de autoestima e pela informal vice-primeira-ministra Catarina Martins, é de duvidar.
A prova de avaliação destinada a limitar a entrada dos professores “contratados” num sistema educativo onde há cada vez menos alunos foi abolida por este governo.
Ao mesmo tempo, e com o argumento da disciplina (na perspectiva de que os professores se devem substituir às famílias que preferem dar telemóveis aos filhos em vez de os disciplinar), já se põe a hipótese da redução do número de alunos por turma. É um expediente que vai pôr mais professores a trabalhar para o Estado, mesmo sem haver mais alunos. 
A progressão na carreira e os níveis profissionais e salariais dos professores (factores que são especialmente importantes para os que têm mais anos de carreira) estão congelados desde o primeiro governo de José Sócrates. Nem se fala nisso. E o congelamento continua.
A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) teve dirigentes nacionais de qualidade intelectual como o teórico e pragmático António Teodoro e o lírico Paulo Sucena. Sucederam-lhes aventureiros que se julgavam iluminados. E depois Mário Nogueira, da ala mais troglodita do PCP. 
A estabilização profissional e salarial (até ao descalabro de Sócrates/Teixeira dos Santos) dos professores veteranos afastou-os da Fenprof enquanto Mário Nogueira preparava a sua ascensão.
À frente da Fenprof, Nogueira transformou-se no campeão sindical dos professores “contratados”. Ignorou todos os outros que já não achavam útil a Fenprof. Os apelos bélicos de Nogueira, ao longo dos anos, passaram a ter como público-alvo os “contratados” e as famílias em geral. 
Onde houvesse uma perturbação que prejudicasse a tendência dos papás e das mamãs para entregarem as crianças à escola, lá estava ele. Onde houvesse uma perturbação causada pelos “contratados” que queriam ir trabalhar para as escolas com ou sem alunos, lá estava ele. Onde havia escalões congelados e carreiras bloqueadas… não estava.
Mário Nogueira desapareceu de cena. Não se vê nem se ouve. Pelo menos em público. O Ministério da Educação, capitaneado por um jovem que desistiu da pesquisa científica para curar o cancro, se não lhe entregou a sua agenda política, parece.
Reina a calma em todo o país da Fenprof. Mário Nogueira, que vivia da gritaria, da contestação, do sobrolho franzido (como o seu chefe Jerónimo de Sousa), deixou de existir mediaticamente. Morreu. Resta dele uma espécie de ectoplasma num ministério pacificado por acordos feitos na sombra. 
Está tudo bem, portanto.

Estado de guerra


Eles estão entre nós. Nasceram entre nós, vieram para cá antes ou agora, de avião (como profetizou Guterres num arroubo delirante), por meios mais convencionais ou no meio dos refugiados (como indicam o bom senso e os manuais de guerrilha).
Já lá vai o tempo do terrorismo anarquista ou da guerrilha de inspiração marxista-leninista que só tinham por alvo os chefes políticos e militares. Com os terroristas islâmicos somos todos alvos. Já éramos. Continuamos a ser. Continuaremos a ser.
É bom que as pessoas se indignem porque lhes faz bem e ficam aliviadas mas será melhor que não se mostrem tão surpreendidas a cada atentado terrorista nas ruas onde antes julgavam que podiam andar seguras.
A guerra é a guerra e o campo de batalha da ofensiva deles são as nossas ruas.
Não se defendam e depois não se queixem.


Os atentados noticiados pela Amaq,
a única agência de notícias que trabalha com o Estado Islâmico/Daesh



domingo, 20 de março de 2016

A política não é para amadores distraídos


Havia uma comissão na Assembleia Municipal para "acompanhar" a questão do património termal de Caldas da Rainha que, como se costuma dizer, "nunca saiu do papel".
Um ano depois é proposta uma segunda comissão com o mesmo objectivo. Os seus defensores (CDS/PP, MVC, PCP e PS) indignaram-se porque o PSD (a maioria) a recusou.
Ninguém (nem sequer os próprios proponentes da primeira comissão!) se lembrou de que ela já existia.
A política não é para amadores distraídos.
E os políticos caldenses, nesta trapalhada, revelaram bem as suas elevadas qualificações para a função, de uma ponta à outra do leque partidário.



A "Gazeta das Caldas" (18.03.16) comenta que é falta de memória.
Talvez seja mais acertado dizer que é falta de competência...

Provincianismo

"Jornal das Caldas", 16.03.16



"Gazeta das Caldas", 18.03.16

quarta-feira, 16 de março de 2016

“Quem está com o poder come, quem não está cheira”



O conceito, criticado por ser demasiado óbvio e não por não ser verdade, foi expresso nestes termos por um presidente de câmara da simpática vila de Penalva do Castelo: “Quem está com o poder come, quem não está cheira”.
O autor da frase era do CDS mas podia ser de qualquer outro partido, a começar pelo PS.
Talvez por ter um muito maior número de anos no poder (no governo central, nas câmaras municipais e no aparelho de Estado), o PS é, aliás, o principal partido que depende, para a sua própria existência, do poder. Dinheiro, empregos, vantagens em negócios, influência de decisões, maior poder na compra de votos… Tudo isto, e muito mais, oferece o poder. Mais do que os ideais, de que ainda lhe restará alguma coisa, o PS defende o poder para si e para os seus. Desaparecidos os ideais, o que fica, entre a “realpolitik” e a fome de poder, é uma tentação totalitária.
O Governo da “geringonça” e o seu chefe são os melhores e mais actuais exemplos deste PS. Depois das resmas de boas intenções (parece que havia um “programa macroeconómico” da autoria do actual ministro das Finanças…) da campanha eleitoral e da sua derrota nas urnas de voto, o PS e António Costa dedicaram-se aos malabarismos políticos de uma aliança com o BE e o PCP por um único e exclusivo motivo: garantir o poder. E, quando o conseguiram, foi como m oásis depois de uma travessia do deserto. Quase se ouviram os arrotos de quem, a morrer de sede, bebeu sem se fartar.
O PS precisava, urgentemente, de regressar ao poder. E percebeu que, para o fazer, precisava de acenar com o mesmo isco aos seus aliados: ao BE e ao PCP.
E o que se verifica, diariamente, é isto: os dois partidos que na sua matriz tinham o poder do Estado como dependente do poder dos “trabalhadores” entregam-se agora, com o maior despudor, aos braços do PS para garantirem um quinhão do poder do Estado. Seja lá como for, dando o que for preciso e mais um par de botas para poderem comer em vez de se limitarem a cheirar.
Este processo (que, segundo a teoria leninista, não passa de um desvio oportunista de direita por parte do BE e do PCP) não terminou. E pode passar por alianças eleitorais em eventuais eleições. Não custa a crer, por exemplo, que o PS possa estabelecer uma aliança eleitoral com o BE para garantir uma solução de governo, deixando o PCP ser a oposição “de esquerda”. 
É certo que uma aliança desta natureza alienaria uma parte do eleitorado do PS e daria mais força ao BE, em detrimento do PS, mas também não parece que haja muita gente que o possa lamentar no partido de António Costa… desde que haja cargos para distribuir.
É por isso que, por muito mau que seja este governo (e na realidade é mau), a realização de eleições legislativas antecipadas pode pôr-nos numa situação ainda pior, embora possa haver vantagem em clarificar a situação política nebulosa que foi criada com o golpe de Estado parlamentar do PS, do BE e do PCP.



Família


Os novos donos disto tudo

1. A médica e ex-guerrilheira Isabel do Carmo tem a noção de que aquilo que, como outros, designa por “neoliberalismo” é causador da… obesidade.
Como escreveu no “Público”: “O neoliberalismo tem-se relacionado com o aumento da obesidade. Na Grã-Bretanha a obesidade passou para o dobro em 20 anos. Nos Estados Unidos tem crescido como se sabe. Para esta análise o National Bureau of Economic Research nos EUA construiu um modelo de cálculo com 27 variáveis sociais e concluiu que elas explicam 37 por cento do aumento do Índice de Massa Corporal, 42% da obesidade total e 59 por cento dos seus Graus II e III. O neoliberalismo faz mal à saúde.”
Cada um tem as teorias que quer ter sobre o mundo e suponho, sem conhecer os respectivos estatutos, que a Ordem dos Médicos não interdita os seus associados de terem as suas teorias, por mais bizarras que sejam, desde que elas não influam na prática clínica. Por exemplo: poder-se-ia depreender que uma leitura intensiva dos clássicos do marxismo, de Marx e Engels a Enver Hoxha, passando por Kim Il-Sung, curaria a obesidade a qualquer pessoa. Pode ser que não seja o caso.
Descontada a parte teórica, o que escreveu Isabel do Carmo sobre outro aspecto da vida moderna é muito pior do que um eventual delírio científico. 
No mesmo texto escreveu: “alguma comunicação social portuguesa, particularmente alguns canais de televisão, age como inimiga declarada do governo, como delegada da ordem das coisas dominante”.
Esta postura é um sinal claro do “tempo novo” que aí vem: há uma parte da “classe política” associada à tríade PS-BE-PCP que está apostada na imposição de um clima de domínio político que se traduzirá, nesta vertente, no controlo da comunicação social e dos jornalistas.

2. O ministro da Cultura demitiu, sem qualquer justificação que se conheça, o presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), e nomeou para o cargo um seu subordinado. O anterior presidente tinha sido nomeado pelo anterior governo e não é do PS. O novo presidente é do PS e, que se saiba, não vê a sua nomeação acompanhada por qualquer programa concreto ou caderno de encargos por parte da tutela. 
Não se vê, tão pouco, que o currículo do novo presidente, por respeitável que seja, seja melhor do que o do anterior, que também parece ser respeitável.
As nomeações de pessoas do partido governamental para cargos dependentes da tutela governamental não são uma novidade na democracia portuguesa e, por sinal, não são consideradas um sinal de salubridade política. O que se vê sempre nestes casos é que ao eventual mérito se sobrepõe sempre uma cumplicidade política e partidária.
O que é mais raro nisto tudo, no entanto, é o procedimento: o ministro fez um ultimato público ao anterior presidente e anunciou, também, publicamente que o demitiria se ele não se demitisse, com uma desfaçatez e uma arrogância inusitadas.
A atitude do transitório ministro da Cultura é um sinal claro do “tempo novo” que aí vem: este PS radicalizado, com os seus estranhos companheiros de cama da extrema-esquerda, está apostado na imposição de um clima de domínio político que se traduz, nesta vertente, na entrega de lugares aos seus fiéis, esboçando assim uma rede clientelar e totalitária, como nunca se viu desde, pelo menos, o 25 de Abril de 1974.

3. Julgo que o Elisío Summavielle que conheci na Faculdade de Letras de Lisboa em 1974 ou em 1975 não teria aceite, nestas condições, o cargo que aceitou. 



segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma boa notícia: o IVA dos médicos veterinários pode ser (em parte) recuperado


O partido PAN (Pessoas-Animais-Natureza) fez, afinal, uma proposta de jeito para o Orçamento de Estado: a recuperação  de uma parte do IVA, no modelo já seguido, por exemplo, para os restaurantes e os cabeleireiros, pago pelos serviços de medicina veterinária.
Foi uma boa ideia, que alivia um pouco o peso das despesas veterinárias dos animais de companhia e que, perante a descida do IVA da restauração, ao encontro do eu próprio já aqui defendi.

domingo, 13 de março de 2016

"Tibino": já há um bom restaurante na Foz do Arelho!



     
A primeira impressão, confesso, foi menos boa. Quem me recomendou o "Tibino", um pequeno restaurante à entrada da Foz do Arelho, sugeriu-me que marcasse mesa e assim foi.
Mas, ao chegarmos, a casa já parecia cheia e a mesa que nos foi indicada era tudo menos simpática, colada a uma esquina de um armário. Uma opção foi uma mesa estreita, com um candeeiro. (Quase todas as mesas têm um candeeiro e, pelo simples motivo de a luz ambiente não ser muito forte, o candeeiro cria uma zona mais intima para quem está à mesa, o que é bem pensado.)
Com a escolha dos pratos e a opção de vinho, a situação alterou-se... e para melhor: os copos (de vidro grosso e colorido, com saliências, típicos da Atlantis) foram logo substituídos por copos de vidro transparente e de pé alto, próprios para vinho, como salientou quem atendia.
E depois os pratos cumpriram, e com uma particularidade: como o acompanhamento é à escolha, as costeletas de borrego que escolhi puderam vir com batatas a murro e legumes cozidos, numa combinação perfeita; e a carne de porco à alentejana estava também perfeita, com tudo no ponto certo.
O "Tibino", com a sua atmosfera de "bistrot" e também como bar, com uma decoração simples mas bem pensada, uma cozinha prometedora, preços moderados, uma garrafeira ainda modesta mas com vinho aceitável a jarro e a opção dos petiscos em vez de pratos mais completos, é altamente recomendável.
Não há melhor na Foz do Arelho (e consegue ser mais convidativo do que o seu vizinho "Távola") e, no conjunto da oferta restaurativa do concelho de Caldas da Rainha, estará entre os melhores.
Os pratos do dia são anunciados na página do Facebook, onde figuram também outros pormenores. O número de telefone é o 262 979 047.

"Manual do Assassínio Político" on line na íntegra

 
A versão integral desta minha obra de 2001 encontra-se disponível aqui. Nela abordo um dos primeiros grandes casos em que o Ministério Público soube utilizar as metodologias da comunicação social para fazer avançar um processo que daria origem a uma acusação... que terminou em absolvição.

sábado, 12 de março de 2016

Visita




 
 
Nunca tinha visto por aqui uma borboleta destas.
Chegou de noite ou ao romper do dia e ficou no chão, quase sem se mexer. O mesmo quando a pus em cima da mesa, ainda no exterior.
Acabou por desaparecer. Ficou só em fotografia.

Truques... anónimos

 
 
A imprensa, em geral, e os jornalistas em muitos casos particulares, nunca tiveram uma visão complacente do anterior governo.
Pelo contrário, os vários tipos de oposição (dos protestos anti-troika aos sindicatos da CGTP, passando por António Costa e por Mário Nogueira e diversos comentadores) foram sempre recebidos, e ampliados, com considerável benevolência.
A "esquerda", como é evidente, nunca se queixou.
Agora, quando (e numa escala menoríssima) alguma imprensa, alguns comentadores e alguns jornalistas se mostram críticos perante o governo da tríade PS-BE-PCP, já se disparam os tiros da "manipulação", dos "truques" e do "desprestígio do jornalismo".
E quem o faz é uma página do Facebook com a designação de "Os truques da imprensa portuguesa" (a que aparece acoplado "demissão de José Rodrigues dos Santos"), diversos exemplos do que seria a tal "manipulação", atacando sobretudo o "Observador" (mas, também, esses admiráveis exemplos da respeitabilidade jornalística que são os "ao minuto"...).
O problema é que quem o faz é anónimo. É uma "comunidade" do Facebook sem nomes, sem caras e sem assinatura.
Num caso destes, a credibilidade da crítica exige uma coisa muito  simples: transparência. Ela, neste caso, não existe.
O que, só por si, é revelador de que há alguma coisa a esconder...


domingo, 6 de março de 2016

Os zombies da política caldense

 
Depois de um ano de ilusões presidencialistas, o MVC regressa morto-vivo
 
 
Num concelho como o de Caldas da Rainha, politicamente bloqueado por uma maioria absoluta incompetente (os herdeiros do PSD de Fernando Costa) e com uma oposição fragmentada, feita de apêndices regionais dos principais partidos e sem projectos adequados, justificava-se uma iniciativa externa aos partidos do "status quo" que pudesse, na melhor das hipóteses, introduzir uma dinâmica capaz de, pelo menos, mudar alguma coisa.
O Movimento Viver o Concelho (MVC), que começou a germinar antes das eleições autárquicas de 2013 com uma candidatura de cidadãos independentes e desagradados com os partidos existentes, corporizou essa esperança, teve um resultado interessante nessas mesmas eleições e depois... nada.
Os seus eleitos foram mantendo alguma intervenção, aparentemente descoordenada, mas o resto dissipou-se. A intervenção pública desapareceu.
Mas, pior do que isso foi o modo como as figuras de referência do MVC resolveram, há cerca de um ano, abraçar a causa caudilhista de um candidato às eleições presidenciais que também se reclamou da "independência" política para lançar uma das campanhas eleitorais mais demagógicas que houve em Portugal desde 1974 e que, merecidamente, lhe deu uma derrota estrondosa.
Esse desvio do MVC não colou apenas um movimento independente a uma espécie de proto-partido unipessoal. Ao fazê-lo, o MVC levou como reféns os votos que conseguira em Setembro de 2013.
Foi, durante um ano, o que fizeram. E, com isso, o MVC morreu politicamente.
Agora, como se nada tivesse acontecido, o MVC anuncia uma "jornada subordinada ao tema 'Pensar Independente-Caldas da Rainha 2017', tendo como objectivo a promoção de um debate alargado e aberto (...) e envolver pessoas sensíveis ao tema, que se preocupem com o desenvolvimento das suas terras e/ou do concelho. Tendo em vista a possível construção de uma opção independente para as próximas eleições autárquicas."
Não é assim que as coisas se fazem e esta iniciativa parece oscilar entre a ingenuidade e a desonestidade políticas.
O MVC transforma-se deste modo nos "walking dead" da política caldense.
 
 
 
Por uma aliança de boas vontades
 
Além disso, como já escrevi, qualquer esforço sectorial (venha ele do que resta do MVC, do PS, do CDS ou do PCP ou dessa pérola da asneira que é o BE) será uma inutilidade nas eleições autárquicas de 2017: nenhum destes partidos, por si, conseguirá ganhar a Câmara Municipal ao PSD.
Juntos, no entanto, poderão fazê-lo.
Os resultados eleitorais de 2013 são claros e não se compreenderá que o PS, que conseguiu formar uma aliança tão espúria para o governo da nação, não consiga federar para as eleições deste concelho uma aliança de boas vontades que vise reunir a soma dos votos da oposição e sobrepô-los aos votos concelhios do PSD.
Defendi-o neste blogue e no "Jornal das Caldas" (ver aqui) e não deixa de ser curioso verificar que há mais gente a pensar nisso.
Foi o caso, de certo modo indirectamente mas a chamar os bois pelos nomes, do apontamento publicado na passa sexta-feira passada pela "Gazeta das Caldas".
 
 
"Gazeta das Caldas", 4.03.16: o PSD local pode "cair na realidade"




A realidade

Para que não haja dúvidas, republicam-se aqui os resultados eleitorais de Setembro de 2013.
Os números são claríssimos: os votos conjuntos dos restantes partidos suplantam os do PSD. O afastamento do PSD da Câmara Municipal de Caldas da Rainha só se consegue pela aliança de toda, ou quase toda, a oposição
 
 
PSD
PS
MVC
CDS
PCP
BE
Assembleia Municipal
8603
4766
2078
1986
1146
786
Câmara Municipal
9203
4866
1856
1967
1089
601
Fonte: Comissão Nacional de Eleições (eleições autárquicas de 2013)


sexta-feira, 4 de março de 2016

Quiseram, não foi? Agora não se queixem

Janeiro de 2015: o CDS/PP, o MVC e, à sua maneira, o PS 
passaram um cheque em branco ao PSD caldense

Foi em Janeiro do ano passado que, contentinhos da Silva, os representantes do CDS/PP e do MVC votaram a favor da "entrega" do património termal de Caldas da Rainha à respectiva câmara municipal.
Nessa reunião da Assembleia Municipal o PS absteve-se e o PCP votou contra. O PSD, maioritário, votou a favor e ganhou. O que neste concelho, em termos políticos, passa por "oposição" não se apercebeu do disparate do cheque em branco que deu à Câmara. (Mais pormenores aqui.)
Há pouco mais de um mês, um luzido grupo da dita oposição foi (pela primeira vez!) ver por dentro o hospital termal e os famosos pavilhões do parque. Ficaram boquiabertos e "indignados" com o que viram. Ou seja: compraram sem ver.
Há coisa de uma semana, o CDS/PP, o MVC e o PS e o PCP voltaram a indignar-se, desta vez porque o PSD recusou, na Assembleia Municipal, uma proposta de constituição de uma comissão de acompanhamento do património termal. Bem podem limpar as mãos à parede, no entanto.
O voto em branco que deram ao PSD caldense e à sua câmara municipal para ficarem com o património termal legitimou todos os comportamentos do grupo que dirige a Câmara.
É certo que um voto contra de toda essa oposição, nessa reunião da Assembleia Municipal, não teria impedido a coisa devido à maioria detida pelo PSD. Mas teria mostrado que a Câmara ficaria sozinha, mesmo que moralmente, a fazer as suas asneiras neste domínio.
Não acredito, até pelos montantes envolvidos, que a Câmara Municipal da "Nova Dinâmica" tenha algum projecto, plano, intenções, parceiro(s) para reabilitar o património termal. Pode fazer algumas flores no próximo ano, por conta da campanha eleitoral, mas não tem capacidade, engenho ou qualquer tipo de massa crítica para ir mais longe. E só pode ser esta a explicação para a recusa do PSD de uma comissão municipal. Nem era difícil de antever.
 
 
Milhões, milhões...
 
Só em medidas de curto prazo, travar a degradação só dos pavilhões do Parque exigirá obras entre os 400 e os 500 mil euros. Para uma intervenção de fundo já serão necessários 9,8 milhões de euros.
É a conta que começa a chegar, apresentada em projecto pela empresa A2P à Assembleia Municipal. O projecto (um "diagnóstico") custou 12 mil euros à Câmara.
Supõe-se que os partidos da oposição hão de ter engolido em seco e pensado, cada um com os seus botões, que felizmente nunca conseguirão chegar à gestão camarária.
O pior é o resto, claro, quando começarem, como todos nós, a receber a conta em casa. 
 

quarta-feira, 2 de março de 2016

A propósito de um enigmático prémio de José Rodrigues dos Santos




1.
A notícia é lacónica e citamos o que foi publicado no jornal "i":
 
"José Rodrigues dos Santos é considerado pelos portugueses o melhor escritor nacional. O inquérito foi realizado junto de 28 mil pessoas pela organização do Prémio Cinco Estrelas e questionou os portugueses sobre quem é o melhor escritor do país. Para a escolha era preciso ter em conta várias variáveis como, por exemplo, a qualidade da escrita. Recorde-se que o escritor e jornalista tem 14 romances, todos publicados pela Gradiva. José Rodrigues dos Santos está traduzido em vinte línguas e já vendeu mais de dois milhões de exemplares. Chegou ao top de vendas em Portugal, França, Bulgária e Hungria."
 
2.
Há neste texto três elementos intrigantes a ressalvar: "28 mil pessoas" representam os "portugueses" que se pronunciaram sobre o mérito do autor; não pormenores sobre os vários elementos do "inquérito" (sendo conveniente recordar, a propósito, as fichas obrigatórias para a publicação de sondagens na comunicação social); há um "Prémio" chamado "Prémio Cinco Estrelas".
No "i", só para nos cingirmos ao órgão de imprensa nacional que deu a notícia, ninguém suscita estas dúvidas, das quais a terceira é a mais enigmática: o "Prémio Cinco Estrelas".
 
3.
Existe uma empresa em Lisboa chamada Cinco-Estrelas (com site aqui) que tem como lema a "certificação". Abundante em conceitos e marcas, o site parece sugerir isto: qualquer pessoa se pode candidatar a "examinador", qualquer empresa se pode candidatar a essa "certificação" que parece dar origem a um destaque no site e na comunicação social.
A intenção da Cinco-Estrelas (que garante ser composta por pessoas, sem nome nem rosto, que andam a fazer isto há "10 anos") aparenta ser benévola: distingue o que tem qualidade, o que tem "5 estrelas".
A título pro-bono porque o site não tem qualquer informação sobre um eventual pagamento do galardão?
Não.
Aliás, facilmente se intui que a situação é outra(independentemente de qualquer pessoa de bom senso não conseguir pensar que a Cinco-Estrelas seja um agrupamento de benfeitores), como se pode ler na publicação de marketing "Marketeer":
"Qualquer produto ou serviço que seja comercializado no mercado nacional pode candidatar-se ao Prémio Cinco Estrelas mas nem todos serão admitidos, como esclarece Ana Cristina Loureço à Marketeer. A responsável explica ainda que não é necessário nenhum pagamento inicial para que as marcas se inscrevam no Prémio Cinco Estrelas. As candidaturas validadas têm, depois, mediante pagamento, a oportunidade de ter acesso aos relatórios provenientes das seguintes fases do processo de certificação, que passa por testes de experimentação e ainda questionários de avaliação massificada" (sublinhados meus).
 
4.
Ou seja:
(1) o tal "prémio" de José Rodrigues de Santos é uma coisa de critérios e universo absolutamente desconhecidos;
(2) as empresas, produtos e serviços que se "candidatam" ao dito prémio sujeitam-se a um pagamento "depois";
(3) o site não informa se pode haver "candidaturas" pessoais mas, de qualquer modo, José Rodrigues dos Santos tem o apoio de uma editora (Gradiva) que beneficia decerto bastante das vendas dos seus livros;
(4) é legítimo supor, perante a formulação (não desmentida) da "Marketeer" e a ausência de outras informações sobre um assunto de inegável interesse público, que alguém ou alguma entidade possa ter estado na situação descrita pela "responsável" Ana Cristina Loureço (ou Lourenço, porque o nome aparece escrito das duas maneiras) pela atribuição do "Prémio Cinco Estrelas" a José Rodrigues dos Santos.
 
5.
Houve muitas boas almas que se indignaram (um desporto nacional...) com a "eleição" de José Rodrigues dos Santos.
Deviam, sim, indignar-se por dois outros motivos: (a) pela obscuridade que rodeia o "Prémio Cinco-Estrelas" e (b) pelo facto de talvez não comprarem (se é que compram...) livros de outros autores portugueses.
 
*
 
Convirá acrescentar, para bom esclarecimento dos leitores, que o autor destas linhas nunca leu nem comprou nada do citado autor, não tenciona ler nem comprar e também não simpatiza com a sua "persona" televisiva.