sábado, 19 de agosto de 2017

Ler jornais já não é saber mais (27): mistura grossa

Ensinava-se (e, em geral, conseguia praticar-se) que o jornalismo não pode misturar a informação com a opinião.
O jornalista pode noticiar uma coisa e comentá-la em separado, nunca no mesmo texto.
E o mesmo se aplica aos jornais: há um espaço para a notícia e outro para o comentário.
Não se trata de esconder. Trata-se de, com o maior respeito pelo leitor, dizer-lhe que uma coisa é aquilo que realmente aconteceu (o que sustenta a legitimidade e a idoneidade do meio de comunicação) e outra é a interpretação, a crítica, o remoque, a ironia que o meio de comunicação ou o jornalista podem fazer, com todo o direito.
Com Donald Trump, a distinção desapareceu. Agora prevalece a mistura e a traço grosso.
Tudo é comentário. Desfavorável, claro, porque o jornalismo agora é só "causas".
A informação sobre os acontecimentos, sobre as políticas, sobre os factos em si, desapareceu. Agora é só a opinião, por escrito ou por imagem.
Jornalismo, isto? Não, neojornalismo. O tal que, um dia, fechará definitivamente todos os jornais e todos os empregos do sector.



Portugal a arder

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Turistas


Engarrafamentos, à escala da região e em estradas secundárias mas engarrafamentos, de qualquer modo; percursos que demoram sempre o dobro do tempo a fazer (um que eu faço habitualmente e que demora 10 minutos em estrada secundária e autoestrada demora-me agora em média 20 minutos); mais gente nos supermercados (não é uma pessoa a fazer uma compra mas famílias inteiras para fazerem a mesma compra); com as manhã geralmente nevoentas e mais frias, enchem-se de gente a cidade de Caldas da Rainha, os supermercados, o centro comercial; por todo o lado há autocaravanas.
Na povoação onde moro a população parece ter triplicado. São estrangeiros e talvez emigrantes, todos eles alojados por aqui, em casas, ou partes delas. Há mais pessoas e há mais cães.
Calculo que na praia (a da Foz do Arelho, que os visitantes não conhecem Salir do Porto) a situação deve ser, como sempre é, insuportável. É o que sugerem os muitos carros amontoados nas proximidades, onde não há estacionamento, como nunca houve.
Isto é o turismo em Caldas da Rainha, sobretudo em Agosto.
E, sendo incómodo, dá para perceber que os visitantes são uma boa fonte de receita, formal e informal. Mesmo com pouco à disposição deles. E que, se a situação melhorasse (e nem é difícil) muito maior seria a receita, e com mais emprego.
Não há percursos sugeridos no concelho, não há infraestruturas culturais apresentadas de forma clara. Não há roteiros abrangentes. A Lagoa de Óbidos, suja e de águas escuras, está escondida, Salir do Porto e a ligação por praia com São Martinho do Porto também.
A festa das "Tasquinhas", na capital do concelho nunca deixa de ser um restaurante colectivo onde o cheiro a fritos se embebe nas roupas, sem nada que se venda ou se compre. O comércio mantém os horários rígidos, pouco convidativo. A famosa Praça da Fruta é um inferno de trânsito que não tem onde parar.
Nem a estrada panorâmica da costa atlântica e a sua paisagem são aproveitadas. E dá para perceber, pelos carros de matrícula estrangeira e de aluguer e outros que nunca por aqui se viram, que há uma certa vontade de explorar o interior do concelho.
Só que, além da praia, dos supermercados e do centro comercial, o que é activamente oferecido aos visitantes é lixo nas estradas e pendurado das árvores. As autoridades locais parece que é o que conhecem.



O lixo em que se transformam os anúncios de plástico deixados nas árvores...

... e a Lagoa de Óbidos são duas faces deste concelho mal gerido e mal aproveitado em termos turísticos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

EDP - A Crónica das Trevas (72)

Há cerca de dez minutos houve um apagão.
Anteontem, à hoje do jantar, já tinha havido outra.
Ao longo do dia sucedem-se as flutuações da corrente eléctrica.
Não é só o incómodo. É uma maneira de dar cabo dos electrodomésticos.
Pode haver um milhão de motivos externos (desde o aumento da população em época de férias e grande turismo à seca). Mas nenhum esconde o principal: a tremenda debilidade das infraestruturas da EDP.

Expressamente uma só...



Gostava tanto de ver o "Expresso" a dedicar às séries de televisão em geral o carinho que dedica às séries de uma só empresa, a Netflix.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Notas de prova


Portas do Tejo — Tinto 2014 Vinho Regional Tejo
Castelão e Aragonez
Adega Cooperativa de Almeirim, Almeirim
12,5% vol.
Decepcionante

Notas de prova



Monte Serra — Tinto 2015 Dão DOP (Sub-região Serra da Estrela
Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen 
Sea Campo, Vila Nova de Tazem
13% vol.
Bom.

Embeleze, senhor candidato Jorge Varela, embeleze...


À atenção do senhor candidato Jorge Varela, que quer "embelezar" a Serra do Bouro.
Talvez uns vasinhos revestidos a lamé com umas flores de plástico (que é do que gostam) fiquem bem aqui, nestas manifestações de desespero do poder autárquico pelas freguesias do interior: 






quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ei-los... e para quê?




Adaptado do "Jornal das Caldas", 9/09/17.

Está, portanto, o plantel completo para as eleições de 1 de Outubro em Caldas da Rainha.
Neste friso, retirado da edição de 9/08/17 do "Jornal das Caldas" (e de onde entendi rasurar uma irrelevância) falta, relativamente, às eleições de 2013, a representação do então promissor grupo de independentes agrupados sob a designação de "Movimento Viver o Concelho" (MVC).
Por respeito para com os que neles votaram em 2013, os dirigentes e dinamizadores do MVC deviam ter explicado a sua ausência. Não o quiseram fazer, depois de se distanciarem do concelho que queriam "viver" no sonho das eleições presidenciais de 2016.
Com esta sua atitude não deixam saudades nem qualquer sugestão de futuro. O que deixam, para estas eleições, é a situação bizarra da Foz do Arelho. É, e será, a única bitola para fazer o óbito do MVC.
Já há por aí cartazes de alguns dos candidatos à Câmara Municipal. Começaram a aparecer há cerca de um mês. Mas para quê? 
Se quisessem ganhar estas eleições teriam procurado um entendimento alargado contra o candidato que é presidente da Câmara Municipal.
Teriam começado a fazer trabalho político há muito tempo. Não apareciam agora.
Não é em mês e meio que se muda o sentido de voto num concelho onde, como infelizmente vai acontecer, o presidente da câmara ganha nas calmas porque... está lá. Porque nunca deixou de estar. Porque é o poder.
Porque (como acontece nesta edição do "Jornal das Caldas") a dita criatura não precisa de cartazes porque facilmente arranja meia-dúzia de fotografias para que ninguém se esqueça de que é ele que está no topo da pirâmide de onde saem contratações de empresas para obras, subsídios para associações e empregos para muita gente.
Darei alguma atenção às eleições autárquicas neste concelho, que de livre vontade escolhi para morar. Mas não muita. Porque nem vale a pena.
As eleições estão ganhas pelo PSD local e ninguém quis, verdadeiramente, que isso não acontecesse. Portanto, à partida, nem sequer se justifica ir votar em eleições cujo desfecho previsível abomino.
E não é por causa do PSD, como partido nacional, mas por causa deste PSD, especificamente.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A SEUR é uma merda metastizada



A empresa transportadora SEUR é um cancro, um cancro metastisado.
Comecei a comprar no site eBay e comecei a receber encomendas transportadas pela SEUR, com os atrasos e confusões inerentes. Voltei à Amazon (de onde fugi quando as encomendas caíram nas mãos da SEUR) e eis que me sai a mesma merda, como o que já aqui descrevi.
Desta vez é uma encomenda que parte (de barco? a pé?) de Inglaterra para Madrid e que depois parece estar em trânsito para ser entregue... no dia 4 de Agosto. Na sexta-feira passada.
Ontem inquiri a Amazon.
Responderam-me de lá com um grande relambório com duas informações aproveitáveis: (a) houve "delays in their network" (ou seja, "atrasos na rede da SEUR) pelo que a encomenda será entregue... no dia 18 de Agosto!; e (b) oferecem-me um desconto de 4.35€ pelo incómodo.
Quanto a um "refund" (o reembolso do dinheiro pago), que o peça já ou que espere pelo dia 18.
Vou esperar. Mas repetindo: a SEUR é uma merda, um verdadeiro cancro cheio de metástases.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Bracinho

Se bem me lembro, as duas mãos devem ir no volante, com a direita a beneficiar de escapadelas para a alavanca das mudanças.
Também há uma variante: a mão esquerda no volante e a direita na alavanca das mudanças em regime quase permanente. Mas não é para todos, claro.
Esta variante do bracinho direito de fora é que eu não consigo perceber. Mas até se pode dar o caso de a criatura ter três braços...




Resposta aberta ao senhor candidato Jorge Varela

Já tinha reparado no agora candidato autárquico Jorge Varela (e não se pode dizer que tenha sido por boas razões) e uma "carta aberta" que dirigiu aos “caldenses de Santo Onofre e da Serra do Bouro” ("Jornal das Caldas", 2.08.17) recordou-mo.
Candidato à presidência (pelo PSD de Caldas da Rainha) da Junta de Freguesia que resultou do acasalamento forçado das freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro, Jorge Varela (como é típico da "nomenklatura" caldense) conhece bem "a cidade" que é apenas a capital do concelho e mal o resto do concelho. Aliás, nota-se bem de novo na sua "carta aberta", onde consegue espremer algumas palavras de circunstância sobre a Serra do Bouro.
Por essas e por outros, dirigi-lhe uma resposta aberta (ao cuidado do "Jornal das Caldas") que aqui reproduzo:


Escreveu o Sr. Jorge Varela, na qualidade de candidato autárquico à Junta de Freguesia que resultou da união das freguesias de Santo Onofre e Serra do Bouro, de Caldas da Rainha, uma “carta aberta” aos “caldenses de Santo Onofre e da Serra do Bouro”.

Permita-me o “Jornal das Caldas”, que a publica na sua edição de 2 de Agosto de 2017, que dê ao senhor candidato uma resposta aberta, o que faço nos seguintes termos:

1. Sou caldense por opção de residência, na Serra do Bouro, desde 2002, encontrando-me recenseado nesta freguesia, onde voto quando assim o entendo fazer.   

2. A freguesia da Serra do Bouro tem, efectivamente, “beleza natural” e “vistas fantásticas (…) sobre o mar”. Não é, no entanto, a única freguesia do concelho de Caldas da Rainha nestas condições. Salir do Porto, Foz do Arelho e Nadadouro são as outras freguesias que compõem toda a “fronteira” oriental, encostada ao Oceano Atlântico, deste concelho. Dado que os políticos da “cidade” caldense conhecem mal o interior do concelho, espero que esta informação lhe seja útil.
3. A Serra do Bouro não precisa de “ser complementada com um embelezamento de que já é merecedora”. Ela precisa, sim, como as restantes freguesias rurais, de estradas utilizáveis, de placas toponímicas dignas, de equipamento público mínimo, de limpeza capaz, de sinalização útil, de uma rede de abastecimento de água devidamente funcional e, sobretudo para os seus cidadãos mais idosos, de meios viáveis de acesso à capital do concelho, onde são obrigados a tratar de tudo. Espero, também, que esta informação lhe seja útil.
4. Não há, fora isto, nenhumas “vantagens” em estarmos “unidos a uma freguesia urbana”, sobretudo quando (pelo acasalamento forçado de freguesias), a Serra do Bouro e Santo Onofre até estão geograficamente separadas por uma terceira freguesia. A associação entre as duas freguesias teve uma única desvantagem (e nenhuma vantagem): o agravamento da situação isolada desta freguesia e o seu esquecimento por parte do poder vigente.

Aceite, senhor candidato, os meus cumprimentos, como eleitor livre da Serra do Bouro,
Pedro Garcia Rosado
Cabeço da Vela, Serra do Bouro, 4 de Agosto de 2017



"Jornal das Caldas", 9.08.17



Em tempo:
O senhor candidato respondeu-me, com cortesia, informando-me de que a sua "carta aberta" se destinava "a apresentar os motivos pelos quais [se candidata], pelo que não deve ser confundida com um programa eleitoral" e que a sua candidatura está "aberta a todos os caldenses, de origem ou adoptados".
Fiquei a saber, portanto, que sou "adoptado". Estamos sempre a aprender.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Notas de prova



Cavalo Negro Tinto 2014 Vinho Regional Tejo
Castelão, Trincadeira e Aragonez
Parras Wine (Alcobaça)
13% vol.
Bom!

Notas de prova


Porta 6 Tinto 2015 Vinho Regional Lisboa
Sem indicação de castas
Vidigal WInes, Cortes (Leiria)
13,5% vol.
Bom.

O dia do juízo final para o MVC


O ainda presidente da Junta de Freguesia da Foz do Arelho (Caldas da Rainha) tem sobre si a sombra de uma auditoria às contas da junta que lhe atribui irregularidades financeiras graves. Não é, que se saiba, arguido em nenhum processo judicial nem foi declarado culpado seja do que for por qualquer decisão judicial.
A sua decisão de se recandidatar ao cargo (se arranjar os devidos apoios, claro) é legítima. Seria talvez mais recomendável que não o fizesse, mas o certo é que, não o fazendo, estaria a dar razão aos resultados da auditoria.
Se apresentar a sua candidatura, o pequeno eleitorado local decidirá se o penaliza pelas suspeitas ou se o apoia pelo que fez como presidente da Junta de Freguesia.
O resultado que a sua eventual recandidatura obtiver será também uma espécie de "julgamento final" do grupo independente MVC. Estreou-se, e bem, nas eleições de 2013 e, tendo desistido destas, acaba por ir a votos na pessoa de Fernando Sousa. O que disseram não apaga o passado.


"Gazeta das Caldas", 4.08.17



A perfeição é isto: "Fargo"






A terceira temporada de "Fargo", a série inspirada pela longa-metragem de Joel e Ethan Coen com o mesmo título (que aqui aparecem só como produtores executivos), é a perfeição televisiva em estado puro e um exemplo excepcional do modo como a ficção televisa de elevada qualidade pode suplantar muito do cinema que hoje se faz.
São dez episódios (de 50 e poucos minutos cada) com um história que se desenrola sem pressas mas sem um momento morto, com uma banda sonora admiravelmente articulada com as imagens e em todos os registos (até "Pedro e o Lobo", de Prokofiev, numa espécie de alegoria!).
Ewan McGregor (em dois papéis, perfeito), Carrie Coon (uma das polícias dessa estranha terra gelada onde tudo acontece) e, em especial, David Thewlis (um dos melhores "maus" de sempre, espantoso!) são, num leque de interpretações muito sólidas, os cabeças de cartaz desta temporada e tudo passa por eles, e em quase todos os registos. E por Noah Hawley, criador da série, autor e produtor, cujo trabalho até agora não conhecia mas que aqui se destaca em grande estilo.
No actual e riquíssimo panorama da produção televisiva de ficção, esta temporada de "Fargo" (como também o recente "The Night Of") é exemplar.
Daqui por cem ou duzentos anos talvez se faça algo parecido em Portugal e talvez quem escreve sobre cinema nos jornais perceba que o mundo do audiovisual evoluiu como talvez nem se pudesse ter imaginado.



Ler jornais já não é saber mais (26): a estatística idiota do "cada vez há mais" (3)


Pode haver outras explicações, mesmo as mais fantásticas, mas há uma que me parece evidente e muito lógica: a enorme quantidade de jornalistas com um assinalável grau de iliteracia em matemática e traumas profundos relacionados com a aprendizagem das ciências exactas na escola que se excitam (e sabe-se lá a que nível) com uma qualquer ordem de grandeza estatística.
O "Jornal de Notícias" é o campeão da coisa e pode inaugurar a terceira entrada do meu blogue dedicada a estas coisas. Decerto que não ficaremos por aqui.





Do "Público" (19.08.17): estatística utilitária

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

57 dias


Faltam 57 dias para as eleições autárquicas.
A primeira página da edição do "Jornal das Caldas" dá conta da importância que estas eleições têm, pelo menos no concelho de Caldas da Rainha: nenhuma. Não há temas em debate, não há balanços a fazer, nem sequer existem ainda todos os candidatos. 
O que sobressai nesta edição são as obras eleitoralistas da Câmara Municipal (que servem, sobretudo, para garantir a reeleição do seu lamentável presidente), várias fotografias do dito presidente e uma patética "carta aberta" de um candidato cheia de baboseiras dirigida a eleitores em quem nunca deve ter tido a maçada de pensar.
Portanto: eleições para quê? Para isto?!